Jesus morreu fora de Jerusalém

Os animais sacrificados eram queimados fora do acampamento, por isso Jesus redimiu-nos e purificou-nos, sofrendo a sua Paixão fora das muralhas de Jerusalém.

O Sumo Sacerdote levava o sangue dos animais sacrificados ao santuário para o oferecer pelos pecados cometidos pelo povo durante o último ano. Oferecia o sangue porque o sangue é vida e o sangue de toda criatura pertence a Deus. Com este rito, a comunidade teve a oportunidade de “limpar e ter vida nova”, e assim restabelecer a sua união com Deus.

Foto: LF

O Santuário estava no meio do acampamento, manifestando a segurança no ambiente hostil do deserto. Aqui Deus reuniu o seu povo para que deixassem de ser “ninguém” e passassem a ser “alguém”, porque estar dentro do acampamento significava pertencer a Deus, ter valor aos olhos de Deus, ser importante para Deus, e também aos olhos das outras pessoas da comunidade. Por outro lado, estar fora do acampamento significava pertencer à “solidão”, ao deserto, e isso era perigoso, pois matar alguém que não era “ninguém” não era considerado homicídio. Também fora do acampamento estavam os postos do lixo, nesse lugar se queimava o lixo, e reinava o caos e a morte.

Na origem das crucificações os romanos reservavam-nas para os agitadores que ameaçavam a ordem pública e realizavam-se, precisamente, nos aterros; fazia-se assim para que a morte fosse mais vergonhosa já que, além disso, a crucificação era feita com os corpos nus para indicar que aqueles que assim morriam eram lixo; e também não eram enterrados, ficando como lixo, pois era a última ignomínia que lhes podiam fazer.

O facto de Cristo morrer fora de Jerusalém implicava uma inversão de valores: Deus escolheu viver onde não há pertença nem intimidade, o lugar da presença de Deus passa de estar no Templo para estar na Cruz.

A Cruz trastorna os nossos valores e diz-nos que o poder se encontra na impotência e na desonra da Cruz; por isso, para encontrar Deus, temos que sair das nossas seguranças para encontrar Cristo no desprezo que Ele sofre na Cruz.

Compromissos que surgem da Espiritualidade do Sangue de Cristo:

1- Não podemos fugir dos fracassos e das tragédias, mas temos que aproximá-los das feridas de Cristo para que sejam redimidos e nos tragam novos horizontes de vida.

2- Não podemos descartar os outros só porque são diferentes ou porque a sua aparência não é como a nossa.

3- Temos que resgatar dos terrenos baldios:

– Os que não têm casa e aqueles que, por mais que se esforcem, nunca conseguirão recuperar-se das contrariedades da vida.

– Essas pessoas com mais de 50 anos, que de repente se encontram sem trabalho e sem possibilidade de o encontrar porque já não são rentáveis.

– Mulheres e crianças vítimas de abusos sexuais e de autoridade, que têm medo da intimidade e não confiam em ninguém.

– Alguns idosos que, apesar de receberem muito boa atenção médica, nos seus lares ou residências carecem de carinho, escuta e dignidade.

– A pessoas a quem as mudanças da vida as apanha de surpresa e não conseguem adaptar-se às novas situações e, por isso, vivem como robôs.

4- Ser testemunhas de que Deus não “faz” lixo, mas que o lixo é provocado pelo egoísmo, pela inveja, pela soberba… pelo nosso pecado.

5- Oferecer às pessoas que sofrem um amor restaurador, não um amor de compaixão (coitadinhos), para que se apercebam de que Deus conta com elas, porque são importantes para Ele.

6- Ser artesãos da reconciliação, não a deitar “lenha para o fogo”, mas sim “água” para que se apaguem as discórdias e os confrontos.

7- Não nos podemos afundar diante dos falhanços e quando as coisas não saem como tínhamos pensado, pois a cruz (o fracasso) de Cristo foi a sua grande vitória.

8- Reconhecer que Deus está acima de tudo e que não quis que o seu Filho ficasse no monte do lixo, mas que Ele lá montou a sua tenda, porque no monte do lixo estão também os seus queridos filhos.  (Pe Paulino, CPPS)

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